Nunca foi logrado esse desejo;
Por bem pago me dou das minhas penas,
Se um dia a vejo!
Vê-la somente! amor desavisado!
Que já nem sei agora que mais peça;
Nem sei de extremos, ou maior agrado,
Que lhe mereça.
Quisesse a minha próspera ventura
Descobrir-lhe esta dor, que me devora;
Teria dó da minha vida escura,
Gentil senhora.
Que para mim a aurora nunca aponta,
Nem eu vejo do Sol os resplendores;
Os males meus, senhora, não têm conta,
Nem minhas dores.
Mas quando a furto a vejo, que alegria!
Mas quando a voz lhe escuto, desfaleço!
E deste padecer, que me excrucia,
Até me esqueço.
Eu não lhe imploro amor: virá somente
Entreabrir-se-me o céu formosa dama,
Se lhe ouvisse dizer com voz tremente:
«Como ele me ama!»
(Gonçalves Crespo) - Miniaturas
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