Podemo-nos enamorar de repente, até em poucos dias, inclusivamente em poucas horas, duma pessoa que nunca vimos antes.
A essa experiência dá-se o nome de amor à primeira vista. Tivemos um exemplo típico disto no caso de O homem de Turim para quem tudo se alterou no decurso de uma noite. Estudando outros casos de amor à primeira vista, apercebi-me, no entanto, que normalmente isto só acontece depois dum determinado número de explorações, depois de uma série de tentativas e erros.
Vê-se isso muito bem no caso a que chamarei O homem ambicioso, um empresário que casara com uma mulher feiinha mas muito rica e que atingiu o cimo duma instituição na companhia de um aventureiro sem escrúpulos. Tem poder, prestígio, riqueza e vive rodeado de mulheres muito belas que fazem com que a sua mulher lhe pareça insignificante. Ele engana-a. E ela, em compensação, de vez em quando foge de casa com os filhos. Depois o império do aventureiro desmorona-se e desmorona-se também o seu casamento. Sentindo-se livre, vai viver com uma mulher muito bonita e muito mais nova do que ele, mas acaba depressa. Tenta com outra, também esta jovem e vistosa. Mas sente-se sozinho e vazio. Nesta altura encontra um amigo que lhe propõe a entrada como sócio para a sua agência de publicidade. Ele aceita com entusiasmo. A nova actividade agrada-lhe, faz projectos, viaja muito. Um dia, no aeroporto de Roma, encontra uma lindíssima senhora alemã. Fazem a viagem juntos até Milão. É o amor à primeira vista. O homem ambicioso compreende, desconcertado, perturbado, que na sua vida nunca se enamorara realmente. Pensara sempre apenas no dinheiro e na carreira. Vira sempre as mulheres como troféus a exibir. Pelo contrário, este novo sentimento que sente agora é amor, e por este amor vale a pena lutar até ao fim. Segue-a por toda a Alemanha fazendo-lhe uma corte descarada, sem olhar a tempo, a dinheiro, sem parar, até que por fim ela se divorcia do marido e casa com ele. Um casamento bem sucedido. O caso de O homem ambicioso mostra-nos que o amor à primeira vista é realmente o último acto dum longo processo de procura, enquanto o indivíduo não atinge o grau de maturação necessária e não encontra a pessoa que corresponde às suas profundas exigências.
Momentos de descontinuidade. Mas a expressão «amor à primeira vista» é também usada com outro significado. Como momento mágico em que ficamos apanhados, arrebatados, fascinados. Nesta segunda acepção não coincide com o enamoramento, é apenas um momento do processo. Com efeito, em todos os enamoramentos, inclusivamente naqueles que se desenvolvem de forma gradual entre conhecidos e entre amigos, temos a impressão de que há um momento muito especial em que acontece a mudança. Como se se ligasse um interruptor, como se se acendesse uma luz, como se caísse um véu. Daí expressões como tomber amoureux, fall in love.................
Nós resistimos sempre ao amor, ao impulso de nos deixarmos ir. Não percebemos os estímulos que nos solicitam. Mas há um momento em que abandonamos as defesas, nos abrimos, nos rendemos.
O que é então o amor à primeira vista? O fruto da decisão de abandono total, sem reservas, ao processo de fascinação.
(Francesco Alberoni) - Amo-te, Bertrand Editora
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