segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CANTIGA

Embora, Senhora, andeis
De finas telas vestida,
Por meus olhos sois despida.

De clara holanda vestis
Vosso corpo, linda Infanta,
Belo rocal de rubis
Vela-me a vossa garganta;
Trazeis manto de veludo,
Garbosa saia comprida,
Mas, apesar disso tudo
Por meus olhos sois despida.

Através de ricas vestes,
Que vos vestem, linda Infanta,
Adivinho os dons celestes
Do vosso corpo de santa;
Vossas vestes de cetim,
Vestes com que andais vestida,
De vidro são para mim:
Por meus olhos sois despida.

Vejo-vos só mãos e cara,
Mas não preciso ver mais
Para calcular a rara
Graça do que me ocultais...
Para quê rendas e folhos.
Senhora da minha vida,
Se por estes tristes olhos,
Por meus olhos sois despida?

Eugénio de Castro in Obras Poéticas de Eugénio de Castro
Parceria A.M. Pereira, Lda.
Lisboa

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