terça-feira, 21 de julho de 2009

A FLOR SECCA

Vae, flor gentil, vae prenda suspirada,
Doce mimo de amor terno e fagueiro,
Vae, que elle mesmo grato e prazenteiro
Elle te hade levar á minha amada.

Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada:
Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro,
Se o viço, a gala do verdor primeiro
Em tuas pallidas folhas vir crestada.

Diz'-lhe que mais que a ti, mais me queimara
O intenso ardor d'aquella saudade
Que a ambos n'este estado nos deixara.

Oh! se um benigno influxo de piedade
De seus formosos olhos te orvalhára...
Qual de nós ambos reviver não hade?

Almeida Garrett (Porto, 1819) Lírica Completa
Arcádia

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