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terça-feira, 29 de janeiro de 2013
A COR DO AMOR
A cor do meu amor
É difícil de encontrar
Tão lenta
É a ternura que gasto
No ato sublime
De beber-te
A cor do meu amor
Deixa marcas no teu corpo
Vestígios frescos de mim
E a imperiosa vontade
De saber-te
Saciada
De dedos
Sexo
Segredos
Quanto aos beijos
Mordem-se
Ao compasso dos desejos
Doce
Como pitangas
A rebentar de sumo
EDGARDO XAVIER, in AMOR DESPENTEADO (Casa das Cenas, 2007)
sábado, 12 de dezembro de 2009
a carta da paixão
"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas".
Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas".
Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Vem e despe-me amor
Anda, vem a meus braços
e beija-me como tu sabes,
eu, eu sei que sabes,
deixa-me mergulhar intensamente,
o meu olhar nos teus olhos cor de mar.
Deixa-me afogar nessa imensidão do teu corpo...
Vem. Vem e despe-me.
Despe-me de mansinho.
Despe-me com o teu carinho.
Vem e despe-me suavemente.
Vem.
Quero a suavidade das tuas mãos
a tocar em meu corpo.
Vem, meu amor.
Vem e toca a minha pele como tu sabes.
Com carinho.
Vem. Vem.
Vem tocar-me selvagem.
Vem numa fúria incontida
de desejo enclausurado.
Rasga a minha roupa.
Trinca a minha carne.
Bebe-me com a sede incontida
de tanto esperar.
Vem e dilacera-me os ossos
nesse desejo mútuo de posse...
Vem e despe-me, amor.
(Raferial - Autor desconhecido)
e beija-me como tu sabes,
eu, eu sei que sabes,
deixa-me mergulhar intensamente,
o meu olhar nos teus olhos cor de mar.
Deixa-me afogar nessa imensidão do teu corpo...
Vem. Vem e despe-me.
Despe-me de mansinho.
Despe-me com o teu carinho.
Vem e despe-me suavemente.
Vem.
Quero a suavidade das tuas mãos
a tocar em meu corpo.
Vem, meu amor.
Vem e toca a minha pele como tu sabes.
Com carinho.
Vem. Vem.
Vem tocar-me selvagem.
Vem numa fúria incontida
de desejo enclausurado.
Rasga a minha roupa.
Trinca a minha carne.
Bebe-me com a sede incontida
de tanto esperar.
Vem e dilacera-me os ossos
nesse desejo mútuo de posse...
Vem e despe-me, amor.
(Raferial - Autor desconhecido)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
"Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras
anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão..."
Miguel Torga
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras
anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão..."
Miguel Torga
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