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sábado, 12 de setembro de 2015

COM A TUA LETRA


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


FERNANDO ASSIS PACHECO, in A MUSA IRREGULAR (Assírio & Alvim, 2006)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...

Se o sonho foi tão alto e forte

Que pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!



Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!

Que tudo isso, Amor, nos não importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como o pão.



Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar

Mais doidamente me lembrar de ti!



E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais saudade andasse presa a mim!



Florbela Espanca, "Livro de Sóror Saudade"

domingo, 19 de agosto de 2012

Beijemo-nos, apenas...


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?


Catulo, Carmina, Tradução de António Botto.

Fonte: http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0135.html

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Vem e despe-me amor

Anda, vem a meus braços
e beija-me como tu sabes,
eu, eu sei que sabes,
deixa-me mergulhar intensamente,
o meu olhar nos teus olhos cor de mar.
Deixa-me afogar nessa imensidão do teu corpo...
Vem. Vem e despe-me.
Despe-me de mansinho.
Despe-me com o teu carinho.
Vem e despe-me suavemente.
Vem.
Quero a suavidade das tuas mãos
a tocar em meu corpo.
Vem, meu amor.
Vem e toca a minha pele como tu sabes.
Com carinho.
Vem. Vem.
Vem tocar-me selvagem.
Vem numa fúria incontida
de desejo enclausurado.
Rasga a minha roupa.
Trinca a minha carne.
Bebe-me com a sede incontida
de tanto esperar.
Vem e dilacera-me os ossos
nesse desejo mútuo de posse...
Vem e despe-me, amor.

(Raferial - Autor desconhecido)