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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Eterno em mim

Quisera ser um vendaval
nas tuas lágrimas, amor,
para sofrer contigo de forma igual,
a saudade de te saber calor,
de te sentir carnal.

Foste e és eterno em mim,
como sei sê-lo em ti,
a cada dia que vivamos,
feitos companheiros de abandono,
nos asfaltos dos que vivem
ao nosso lado.

Mas é a ti que me entrego,
a ti espero e desejo,
num manancial de ilusão
e de ingloria e vã tristeza,
dum olhar despido de valor,
que à mesa, se esvai,
feito pão esboroado,
migalha dum querer esfomeado.

domingo, 13 de dezembro de 2015

NOITE QUE ME SOBRA


Queria traduzir os silêncios
que te brotam entre os dedos,
enganar os compassos mortos,
soltar as vontades presas
e costuradas no parapeito do coração.

Queria beijar essa boca
que só em prova se sente,
chover no molhado do teu cheiro
e acender o fogo que sopra o amor
na ternura dos lençóis de cetim.

Queria fazer outro caminho
contigo, e no teu corpo,
soltar os poros da alma
e colher frutos de êxtase
num pomar de carinho.

Queria amanhecer contigo
e nas brechas do desalinho do tempo
dissolver o sono que me roubas,
porque… é tanta a noite
que me sobra nos braços!


ANTÓNIO CARLOS SANTOS,

in DA GEOMETRIA DO AMOR (Seda Publicações, 2015)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Confidência


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Estou mais perto de ti porque te amo.

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.


Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.


Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.


Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Joaquim PESSOA, in OS OLHOS DE ISA [edição especial, Litexa Editora (1983)]; O POETA ENAMORADO (Ed. Esgotadas, 2015)

sábado, 12 de setembro de 2015

Seria o Amor Português


Muitas vezes te esperei, perdi a conta, 
longas manhãs te esperei tremendo 
no patamar dos olhos. Que me importa 
que batam à porta, façam chegar 
jornais, ou cartas, de amizade um pouco 
— tanto pó sobre os móveis tua ausência. 

Se não és tu, que me pode importar? 
Alguém bate, insiste através da madeira, 
que me importa que batam à porta, 
a solidão é uma espinha 
insidiosamente alojada na garganta. 
Um pássaro morto no jardim com neve. 

Nada me importa; mas tu enfim me importas. 
Importa, por exemplo, no sedoso 
cabelo poisar estes lábios aflitos. 
Por exemplo: destruir o silêncio. 
Abrir certas eclusas, chover em certos campos. 
Importa saber da importância 
que há na simplicidade final do amor. 
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo. 
«Que me importa que batam à porta...» 
Sair de trás da própria porta, buscar 
no amor a reconciliação com o mundo. 

Longas manhãs te esperei, perdi a conta. 
Ainda bem que esperei longas manhãs 
e lhes perdi a conta, pois é como se 
no dia em que eu abrir a porta 
do teu amor tudo seja novo, 
um homem uma mulher juntos pelas formosas 
inexplicáveis circunstâncias da vida. 

Que me importa, agora que me importas, 
que batam, se não és tu, à porta? 

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular” 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto



Amo-te muito, meu amor, e tantoque, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.


Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...

Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.



JORGE DE SENA, in POESIA (Ed. 70, 1988)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Morrer de Amor



"Morrer de amor

ao pé da tua boca


Desfalecer

à pele

do sorriso


Sufocar

de prazer

com o teu corpo


Trocar tudo por ti

se for preciso"

Maria Teresa Horta

domingo, 1 de junho de 2014

Dias há para perceber o fundo do poço


Dias há para perceber o fundo do poço, 
a sede dos dias que se afundam, 
não se percebem. 

E o fundo do poço percebe-se 
que seja sede de dias. 
 
De alturas antigas 
que viajam em vertigem. 
 
Viajam nos nossos filhos, 
e na luz que nos protege 
da sede. 
 
A luz que descobre o fundo 
dos poços. 

A vertigem da descoberta 
abre-nos a boca timidamente 
e mata-nos a sede 
dia-a-dia, 

como se de um suave amor
incondicional
se tratasse. 

 Nuno Travanca

quinta-feira, 6 de junho de 2013

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.


Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada


desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.
 

JOAQUIM PESSOA, in OS OLHOS DE ISA, (ed Esp. Litexa, 1982)

domingo, 2 de junho de 2013

AMAR-TE


Amar-te é inventar palavras que ficaram a faltar
...
em frases choradas, é ler-te o desejo abafado na
profundidade do olhar, é adivinhar-te os pecados
intrínsecos na carne – por saciar. É sentir o sabor

dos teus beijos a nuvens de distância e num abraço
decifrar a intensa saudade submersa no tempo.
Amar-te é viver, como minhas, as dores mergulhadas
num peito que é teu, é beber-te as lágrimas do rosto como

se fosse de sede o meu estado. É fazer das minhas
miseras pernas o teu mais ansiado colo, dar-te os
meus ombros como a mais suave das almofadas.
Amar-te. Amar-te é contemplar cada pedaço da tua

pele fundida na minha, é desfazer camas com cheiro
intenso de linho, é acariciar a manta que guardou a
nudez da alma. É desenhar poemas com gotas de suor
e neles descansar. Amar-te é tudo isto e, ainda mais –

ler cada vírgula do teu silêncio.


 
CARLA PAIS (a publicar) 

Amei-te como na vida se ama uma só vez

Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afetos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
...
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão displicente
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há de guardar-te para sempre de voltares.
 

 
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,
in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)
 
 
Partilhei daqui
 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

SE


VASCO GATO, in  47 (Ed. de Autor, 2005)
(excerto 2/5  )

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, 
eu beijo, 
eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo no gesto
sem mágoa
de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar, e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

*
Óleo s/ tela: Love and desire, por © Corina Chiril
*

(LT)
Óleo s/ tela: Love and desire, por © Corina Chiril

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
... se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo,
eu beijo,
eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo no gesto
sem mágoa
de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar, e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

VASCO GATO, in 47 (Ed. de Autor, 2005)
(excerto 2/5 )
 
Retirado daqui e daqui - 

 Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen - Lisboa, Portugal
Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

AMAR


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE,
in ANTOLOGIA POÉTICA, (12ª ed., J. Olympio, 1978)

domingo, 19 de agosto de 2012

Beijemo-nos, apenas...


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?


Catulo, Carmina, Tradução de António Botto.

Fonte: http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0135.html

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mais nós

Dizem que a gente tem o que precisa.
Não o que a gente quer. Tudo bem.
Eu não preciso de muito. 
Eu não quero muito.
Eu quero mais. 
Mais paz. Mais saúde.
Mais dinheiro. 
Mais poesia. Mais verdade.
Mais harmonia. 
Mais noites bem dormidas.
Mais noites em claro. 
Mais eu. Mais você.
Mais sorrisos, beijos e 
aquela rima grudada na boca.
Eu quero Nós. Mais nós. Grudados.
Enrolados. Amarrados.
Jogados no tapete da sala.
Nós que não atam nem desatam.
Eu quero pouco e quero mais.
Quero você. Quero eu.
Quero domingos de manhã.
Quero cama desarrumada, 
lençol, café e travesseiro.
Quero seu beijo. Quero seu cheiro.
Quero aquele olhar que não cansa,
o desejo que escorre pela boca e 
o minuto no segundo seguinte:
nada é muito quando é demais.

(Caio F. Abreu)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

*

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...

*

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!

João de Deus, in 'Campo de Flores'

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, 18 de dezembro de 2010

Beijo Na Boca

Beijo na boca pode ser carinho
Beijo na boca pode ser paixão
Mas pode também ter espinhos
E dilacerar o pobre coração
(2x)

Eu na primeira vez que fui beijada
Facilmente fui levada pela emoção
Naquele tempo era inocente
Um amor tão envolvente me levou à ilusão
Mas durou pouco a felicidade
O lampejo da saudade dominou meu coração
Mas mesmo assim não me serviu de emenda
Eu duvido que aprenda esse tipo de lição

Juliana Diniz

terça-feira, 6 de abril de 2010

Reflexos

"Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti."



Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora
Quasi Edições