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sábado, 12 de setembro de 2015

COM A TUA LETRA


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


FERNANDO ASSIS PACHECO, in A MUSA IRREGULAR (Assírio & Alvim, 2006)

domingo, 2 de junho de 2013

AMAR-TE


Amar-te é inventar palavras que ficaram a faltar
...
em frases choradas, é ler-te o desejo abafado na
profundidade do olhar, é adivinhar-te os pecados
intrínsecos na carne – por saciar. É sentir o sabor

dos teus beijos a nuvens de distância e num abraço
decifrar a intensa saudade submersa no tempo.
Amar-te é viver, como minhas, as dores mergulhadas
num peito que é teu, é beber-te as lágrimas do rosto como

se fosse de sede o meu estado. É fazer das minhas
miseras pernas o teu mais ansiado colo, dar-te os
meus ombros como a mais suave das almofadas.
Amar-te. Amar-te é contemplar cada pedaço da tua

pele fundida na minha, é desfazer camas com cheiro
intenso de linho, é acariciar a manta que guardou a
nudez da alma. É desenhar poemas com gotas de suor
e neles descansar. Amar-te é tudo isto e, ainda mais –

ler cada vírgula do teu silêncio.


 
CARLA PAIS (a publicar) 

domingo, 12 de agosto de 2012

O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando

Impermanente das aves friorentas;

E nos galhos dos anos desbotando

Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas. Até quando?

À vida breve não perguntes: cruentas

Rugas me humilham. Não mais em estilo brando

Ave estroina serei em mãos sedentas.


Pensa-me eterna que o eterno gera

Quem na amada o conjura. Além, mais alto,

Em ileso beiral, aí espera:


Andorinha indemne ao sobressalto

Do tempo, núncia de perene primavera.

Confia. Eu sou romântica. Não falto.



Natália Correia, in "Poesia Completa"


O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando

Impermanente das aves friorentas;

E nos galhos dos anos desbotando

Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas. Até quando?

À vida breve não perguntes: cruentas

Rugas me humilham. Não mais em estilo brando

Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera

Quem na amada o conjura. Além, mais alto,

Em ileso beiral, aí espera:


Andorinha indemne ao sobressalto

Do tempo, núncia de perene primavera.

Confia. Eu sou romântica. Não falto.



Natália Correia, in "Poesia Completa"

domingo, 8 de maio de 2011

Como hei-de ...

Canção de Amor

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua?
Como hei-de elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme!
Pois o que nos toca a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que, de duas cordas, solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violino nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção!

(Rainer Maria Rilke)