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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A escrita é a minha primeira morada de silêncio


A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

***

Al Berto (1948 - 1997)

Coimbra (Portugal)

domingo, 19 de agosto de 2012

Beijemo-nos, apenas...


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?


Catulo, Carmina, Tradução de António Botto.

Fonte: http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0135.html

terça-feira, 26 de abril de 2011

À espera de ti

Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.
Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás ao amanhecer
com as águas das montanhas
entre o coaxar das rãs
saindo do teu peito.
Os dias são maduros
de azul, cânticos de amor e pão.
Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!

E. Bonavena in Kitanda