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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os Teus Olhos

"Direi verde 

do verde dos teus olhos 

de um rugoso mais verde 
e mais sedento 

Daquele não só íntimo 
ou só verde 

daquele mais macio    mais ave 
ou vento 

Direi vácuo 
          volume 
direi vidro 

Direi dos olhos verdes 
os teus olhos 
e do verde dos teus olhos direi vício 

Voragem mais veloz 
mais verde 
            ou vinco 
voragem mais crispada 
ou precipício"

Maria Teresa Horta, in 'Candelabro' 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Esta manhã encontrei o teu nome





Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.


No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida


foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama


e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,
in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (2001),
in POESIA REUNIDA Quetzal, 2012)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.


Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada


desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.
 

JOAQUIM PESSOA, in OS OLHOS DE ISA, (ed Esp. Litexa, 1982)

terça-feira, 9 de março de 2010

Poesia

"é a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde..."



Vítor Matos e Sá
in 'Esparsos'