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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

PARA TI


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

MIA COUTO, 
in RAÍZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS, (Caminho, 1999)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

MORRER DE AMOR

Morrer de amor
ao pé da tua boca


Desfalecer
à pele
do sorriso


Sufocar
de prazer
com o teu corpo


Trocar tudo por ti
se for preciso.


MARIA TERESA HORTA, in POESIA COMPLETA (Litexa, 1983)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

*

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...

*

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três!

João de Deus, in 'Campo de Flores'

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DORME MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu
morrer mais este dia e eu estou aqui, de
guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega - o pior já
passou há muito tempo; e o vento
amaciou; e a minha mão desvia os passos
do medo. Dorme, meu amor,- a morte
está deitada sob o lençol da terra onde
nasceste e pode levantar-se como um
pássaro assim que adormeceres. Mas
nada temas: as suas asas de sombra não
hão-de derrubar-me - eu já morri muitas
vezes e é ainda da vida que tenho mais
medo. Fecha os olhos agora e sossega - a
porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam
perdidos nas brumas que lancei ao
caminho. Por isso, dorme, meu amor,
larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a
escuridão, já olhei a morte debruçada nos
espelhos e estou aqui, de guarda aos
pesadelos - a noite é um poema que
conheço de cor e vou cantar-to até
adormeceres.

(Maria do Rosário Pedreira)