terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DORME MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu
morrer mais este dia e eu estou aqui, de
guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega - o pior já
passou há muito tempo; e o vento
amaciou; e a minha mão desvia os passos
do medo. Dorme, meu amor,- a morte
está deitada sob o lençol da terra onde
nasceste e pode levantar-se como um
pássaro assim que adormeceres. Mas
nada temas: as suas asas de sombra não
hão-de derrubar-me - eu já morri muitas
vezes e é ainda da vida que tenho mais
medo. Fecha os olhos agora e sossega - a
porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam
perdidos nas brumas que lancei ao
caminho. Por isso, dorme, meu amor,
larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a
escuridão, já olhei a morte debruçada nos
espelhos e estou aqui, de guarda aos
pesadelos - a noite é um poema que
conheço de cor e vou cantar-to até
adormeceres.

(Maria do Rosário Pedreira)

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