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sábado, 12 de setembro de 2015

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Solidão

"Solidão não é falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado....
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma..."

(CHICO BUARQUE de HOLANDA)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DORME MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu
morrer mais este dia e eu estou aqui, de
guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega - o pior já
passou há muito tempo; e o vento
amaciou; e a minha mão desvia os passos
do medo. Dorme, meu amor,- a morte
está deitada sob o lençol da terra onde
nasceste e pode levantar-se como um
pássaro assim que adormeceres. Mas
nada temas: as suas asas de sombra não
hão-de derrubar-me - eu já morri muitas
vezes e é ainda da vida que tenho mais
medo. Fecha os olhos agora e sossega - a
porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam
perdidos nas brumas que lancei ao
caminho. Por isso, dorme, meu amor,
larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a
escuridão, já olhei a morte debruçada nos
espelhos e estou aqui, de guarda aos
pesadelos - a noite é um poema que
conheço de cor e vou cantar-to até
adormeceres.

(Maria do Rosário Pedreira)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Memória

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de maio de 2009

El amor

"Qué tienes, qué tenemos,
qué nos pasa?
Ay, nuestro amor es una cuerda dura
que nos amarra hiriéndonos
y si queremos
salir de nuestra herida,
separarnos,
nos hace un nuevo nudo y nos condena
a desangramos y quemarnos juntos.

Qué tienes? Yo te miro
y no hallo nada en ti sino dos ojos
como todos los ojos, una boca
perdida entre mil bocas que besé, más hermosas,
un cuerpo igual a los que resbalaron
bajo mi cuerpo sin dejar memoria.

Y qué vacía por el mundo ibas
como una jarra de color de trigo
sin aire, sin sonido, sin substancia!
Yo busqué en vano en ti
profundidad para mis brazos
que excavan, sin cesar, bajo la tierra:
bajo tu piel, bajo tus ojos
nada,
bajo tu doble pecho levantado
apenas
una corriente de orden cristalino
que no sabe por qué corre cantando.
Por qué, por qué, por qué,
amor mío, por qué?"


Pablo Neruda