quarta-feira, 27 de abril de 2011

Encontrei-te...*

Deitei-me sobre o teu cansaço,
na esperança de trazer-te o descanso
que há tanto tempo em vão procuras.

Cobri teu corpo
e tive-te, e perdi-te ao alvorecer,
quando tudo se confunde
e a noite é dia, e o dia é noite,
e as estrelas são o instrumento
dos nossos sonhos e dos nossos êxtases.

Encontrei-te depois,
quando te perdeste e me encontraste também,
e já o dia amanhecia outra vez.

A. Pereira in Kitanda
*Título alterado

terça-feira, 26 de abril de 2011

À espera de ti

Por agora,
deixa os sinos do teu corpo
tocarem todos,
deixa a vaga de vento
te levar para as portas do céu.
Poisa levemente os pés
na lã dos caminhos e
vai segura pela minha mão
que voltarás ao amanhecer
com as águas das montanhas
entre o coaxar das rãs
saindo do teu peito.
Os dias são maduros
de azul, cânticos de amor e pão.
Haverá mel nos lábios
e em todas as esquinas
estarei
à espera de ti!

E. Bonavena in Kitanda

segunda-feira, 18 de abril de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos e quedos.

Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora in Mar de Sargaços

domingo, 27 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A DISTÂNCIA

METADE DE MIM



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

(Oswaldo Montenegro)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

BARCO

De manhã, que medo que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada na areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o Sol penetrou no meu coração.

Vi depois numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor
Me diz, qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

(David Mourão Ferreira)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Beijo Na Boca

Beijo na boca pode ser carinho
Beijo na boca pode ser paixão
Mas pode também ter espinhos
E dilacerar o pobre coração
(2x)

Eu na primeira vez que fui beijada
Facilmente fui levada pela emoção
Naquele tempo era inocente
Um amor tão envolvente me levou à ilusão
Mas durou pouco a felicidade
O lampejo da saudade dominou meu coração
Mas mesmo assim não me serviu de emenda
Eu duvido que aprenda esse tipo de lição

Juliana Diniz

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

La rueda de los cielos

"La rueda de los cielos rauda gira
aun después de mi muerte y de la tuya;
y porque nuestra pena no concluya,
contra tu alma y mi alma ella conspira.

Ven sobre el verde césped, dulce Amor,
reposa en mí tu frente pensativa;
sólo nos resta una hora fugitiva
de descansar sobre esta hierba en flor.

Después... vendrá otra hierba aún más fresca
del suelo que de amor se fertiliza,
cuando de tu ceniza y mi ceniza
la nueva savia en su eclosión florezca."

Omar Khayyam
(1050-1122)

domingo, 14 de novembro de 2010

Comme un tout petit garçon

"Quand j'étais petit garçon
Ma Maman me disait
Qu'un matin tu viendrais
De toi elle me parlait
Elle connaissait ta voix
Elle inventait ton nom
Et je rêvais de toi
Quand j'étais petit garçon

Elle connaissait aussi
La couleur de tes yeux
L'odeur de tes cheveux
Tes rêves et tes jeux
Je dormais près de toi
En imagination
Car je t'aimais déjà
Quand j'étais petit garçon

Elle me disait toujours
Qu'une Maman s'efface
Qu'un amour la remplace
Avec le temps qui passe
Je pensais à tout ça
Le soir à la pension
Et je vivais pour toi
Quand j'étais petit garçon

Aujourd'hui tu es là
Et dans notre maison
Je me sens près de toi
Comme un tout petit garçon"


Hugues Aufray

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

III

Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.

IV

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.

V

Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.

Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.

VI

Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.

Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.

VII

Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.

VIII

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia, in "Poemas (1955)"

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Amor de tarde

"É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono."



* Don Mário Benedetti.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

No Fundo Aberto

"Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso

como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios."


António Ramos Rosa

sexta-feira, 7 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

La cumparsita


letras de músicas no letras.com.br



quinta-feira, 29 de abril de 2010

CANÇÃO DE AMOR

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.


Rainer Maria Rilke

terça-feira, 6 de abril de 2010

Reflexos

"Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti."



Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora
Quasi Edições

domingo, 14 de março de 2010

S.O.S.



Meus sentidos votaram a lei da procura
E os augúrios colhidos nas minhas entranhas
Prometeram as lutas que vencem a morte.
E foi por isso, mulher,
E foi por isso que antes de eu nascer
Se escreveu no meu sangue
A mensagem que havias de ler.

Mas onde moras?
Tu, que guardas em teu ventre
Um lugar para o meu filho!...
Onde choras,
Se a multidão te pisa, longe dos meus braços...
Onde cantas
Se pressentes
A cadência dos meus passos?...

Vai-se-me tudo em morte, a procurar-te
Nesse golfo revolto que nos engoliu,
Mas eu quero inventar outra vida,
E tenho os planos:
O labor é teu.

Onde moras,
Onde cantas e choras,
Tu de quem me falaram antes de eu nascer?...
E de quem falarei, para além,
Quando eu morrer!

Escuta agora uma garganta enxuta,
Gritando no meu corpo
Esbracejante,
Presa e rebelde
No abraço do mar.
Escuta agora uma garganta rouca
Enquanto a água é pouca para me afogar.
Escuta e não juntes a cinza das velas
Do barco do tempo
Que nos ardeu
- Traz o beijo que resolve
E dissolve as entranhas
Ainda que não sejas tu que venhas.

Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 1911-1939) in Poemas
Campo das Letras

GÉNESIS

O mundo existe desde que eu fui nado.
Tudo o mais é um... era uma vez
- A história que se contou.

No princípio criou-se o leite que mamei
E eu vi que era bom e chorei
Quando a fonte materna secou.

A terra era sem forma
E vazia;
Havia trevas no abismo.

E formou-se o chão
E amassou-se o pão
Que eu comi.
(Era este aquela esponja que eu mordia,
Que eu babava,
Que eu sujava,
Que uma gente andrajosa pedia).

E então se fez
A geração remota dos papões:
Nascera a esmola, o medo, a prece
E o rosto que empalidece...
E a rosa criou-se,
Desejada,
E logo o espinho,
A lágrima,
O sangue.
Este era vermelho e doce,
A lágrima doce, briolhante, salgada;
No espinho havia o gosto
Da vingança perfumada.

E eu vi que tudo era bom.

E fizeram-se os luminares,
Porque eu tinha olhos,
E o som fez-se de cantares
E de gemidos.
Porque eu tinha ouvidos.
Nasceram as águas
E os peixes das águas
E alguns seres viventes da terra
E as aves dos céus.
O homem que então era vagamente feito,
Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,
E fizeram-se as mágoas
E o adeus.

E eu vi que tudo era bom.

A mulher só mais tarde se fez:
Foi duma vez
Em que eu e ela nos somámos
E ficámos três.

Nisto e no mais se gastaram
sete longuíssimos dias.

O mundo era feito
E embora por tudo e por nada imperfeito,
Eu vi que era bom.

Acaba o mundo
Quando eu morrer.
Sim...será o fim!:
Também tu deixas de existir,
No mesmo dia.

E o resto que se seguir
É profecia.

Políbio Gomes dos
Santos (Ansião, 1911-1939) - in Poemas - Campo das Letras