Oh! quão formoso me surge o dia
Lá quando a noite se inclina ao mar,
Quando na aurora que me extasia,
Teu belo rosto cuido avistar!
Não sei que esp'rança jamais sentida
Então me adeja no peito aqui;
É que na aurora saúdo a vida,
Outrora escura, sem luz, sem ti.
Correm as horas, a noite avança,
A Lua brilha com meigo alvor;
Então minha alma, que em paz descansa,
Divaga em sonhos d'ignoto amor.
No véu d'estrelas, na branca Lua
Meus olhos buscam olhos que eu vi,
E o pensamento longe flutua,
E uma saudade revoa a ti.
Eis que adormeço, e um anjo assoma
Todo cercado d'etérea luz;
De seus cabelos recende o aroma
Das castas rosas que o céu produz.
O céu me aponta, sorri-lhe a face;
Acordo, e o anjo foge dali;
Mas em meu peito logo renasce
Doce esperança que vem de ti.
Já pela terra surgem verdores,
Auras serenas baixam do céu,
As aves cantam novos amores,
Tudo se cobre dum flóreo véu;
E céus e terra, montes, paisagem,
Tudo a meus olhos, tudo sorri;
É que ali vejo só tua imagem,
É que hoje vivo, mas só por ti.
Talvez que eu sinta meu pobre enleio
Passar qual brilho de luz fugaz:
Que importa? ao menos dentro em meu seio,
Já morta a esperança, tu viverás.
Oh! sim, que os dias são mais serenos
Com tua imagem gravada ali;
Té mesmo a morte custará menos,
Junto ao sepulcro pensando em ti.
Soares de Passos in Poesias
Lello & Irmão - Editores
Porto
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