sábado, 15 de novembro de 2008

o pássaro vindouro

Um pássaro é um pássaro, seja qual for o meridiano do lugar. Um rio é sempre um rio, seja qual for a latitude ou a extensão do seu curso. Uma oliveira é sempre uma oliveira, seja qual for a terra onde mergulhe as raízes. Mas em todas as palavras há um sentido oculto: para os poetas, por exemplo, o pássaro é um símbolo. Porque tem asas e canta. Porque é pequeno e frágil e inerme. Porque é belo, mesmo quando a plumagem não tem o colorido alacre dos cardeais e colibris. Porque é a imagem simples do que é bom e justo e verdadeiro. Porque é o amor.

Que podem entender, de um pássaro assim, os espíritos práticos com jeito para o negócio? Dentro deles, nunca habitou o Petit Prince: são pessoas irremediavelmente crescidas, a quem há que falar de gravatas, rendimentos, interesses bancários, aposentações, política interna e externa. É gente que, no respeito maquinal da Lei e dos Profetas, esqueceu o mandamento novo: «que vos ameis uns aos outros». Não os culpemos de terem, com a infância, perdido o jeito puro de aceitar naturalmente as flores, os pássaros, a vida: cresceram para um mundo adulto e sábio, onde todas as coisas têm o seu valor na balança comercial, onde os pássaros e flores são apenas pretexto para estudo e compêndios de botânica e zoologia.

Mas nem tudo está perdido. É ainda possível o milagre.

Um pássaro virá, na solidão nocturna, tocar-lhes com a asa o coração fechado. E à leveza do toque, hão-de abrir-se para o Mundo os olhos da cegueira, ansiosos da luz, que é amor, que é verdade e justiça. Com eles estará o Petit Prince, no doce mistério da infância reencontrada; e o cântico do pássaro vindouro será mais belo e forte do que nunca - porque eles são o filho pródigo finalmente regressado a casa de seu Pai.

(Daniel Faria) in discurso sobre a cidade
Editorial Presença

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