domingo, 18 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Apelo

"Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem."


Luísa Dacosta in
Cem Poemas Portugueses no Feminino

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Soneto do Cativo

"Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão e não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!"


David Mourão Ferreira

in Os Quatro Cantos do Tempo, 1953-58

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Eu gosto de você

Você é assim

Um sonho prá mim

E quando eu não te vejo

Eu penso em você

Desde o amanhecer

Até quando eu me deito...



Eu gosto de você

E gosto de ficar com você

Meu riso é tão feliz contigo

O meu melhor amigo

É o meu amor...



E a gente canta

E a gente dança

E a gente não se cansa

De ser criança

A gente brinca

Na nossa velha infância...



Seus olhos meu clarão

Me guiam dentro da escuridão

Seus pés me abrem o caminho

Eu sigo e nunca me sinto só...



Você é assim

Um sonho prá mim

Quero te encher de beijos

Eu penso em você

Desde o amanhecer

Até quando eu me deito...



Eu gosto de você

E gosto de ficar com você

Meu riso é tão feliz contigo

O meu melhor amigo

É o meu amor...



E a gente canta

E a gente dança

E a gente não se cansa

De ser criança

A gente brinca

Na nossa velha infância...



Seus olhos meu clarão

Me guiam dentro da escuridão

Seus pés me abrem o caminho

Eu sigo e nunca me sinto só...



Você é assim

Um sonho prá mim

Você é assim...

Você é assim...

Você é assim...



-"Você é assim

Um sonho prá mim

E quando eu não te vejo

Penso em você

Desde o amanhecer

Até quando me deito

Eu gosto de você

Eu gosto de ficar com você

Meu riso é tão feliz contigo

O meu melhor amigo

É o meu amor"

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

C'EST COMME ÇA QUE JE T'AIME

C'est comme ça que je t'aime
Comme un dieu qui se meurt
Pour l'amour d'une reine
Un poignard dans le coeur
C'est comme ça que je t'aime
Comme un fou malgré moi
J'ai ton sang dans mes veines
Et tes larmes de joie
Ma vie se brûle dans un cri
Dans un volcan, dans ma folie
Des nuits entières auprès de toi
Je vis, je meurs, à chaque fois.

C'est comme ça que je t'aime
Riche et pauvre à la fois
Orgueilleux, infidèle,
Valeureux, fou de joie
Ma vie s'arrache de mon coeur
Se brise en millions de couleurs
On fait l'amour et dans tes bras
Je vis, je meurs, à chaque fois
C'est comme ça que je t'aime
Prisonnier malgré moi
J'ai mon sang dans tes veines
Et je suis fou de toi...



(Mike Brant)

PARCE QUE JE T'AIME

J'ai dans la tête
Le bruit de ton pas qui s'arrête
Alors je cours à la fenêtre
Croyant que tu reviens déjà
Et je frissonne
Dans la rue je ne vois personne
Pourtant tout ce bruit qui résonne
Ce n'est que mon coeur qui bat
Parce que je t'aime plus que moi
Tu ne sauras jamais que j'ai pleuré
Tu ne sauras jamais que sur le quai
Je regardais partir
Mes plus beaux souvenirs
Qui partaient avec toi
Toi que mon coeur avait choisi d'aimer
Toi que mon corps ne pouvait refuser
On dit que c'est comme ça
Quand c'est la première fois
Le jour emporte
Ton image que la nuit m'apporte
Je crois que tu frappes à ma porte
Ce n'est que le volet qui bat
Parce que je t'aime plus que moi
Tu ne sauras jamais que j'ai pleuré
Tu ne sauras jamais que sur le quai
je regardais partir
Mes plus beaux souvenirs
Qui partaient avec toi
Toi que mon coeur avait choisi d'aimer
Toi que mon corps ne pouvait refuser
Je ne peux t'oublier
Parce que je t'aime
Parce que je t'aime plus que moi
Parce que je t'aime plus que moi
Parce que je t'aime plus que moi.


(Mike Brant)

sábado, 29 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

VIENS! - UNE FLÛTE INVISIBLE

Viens!- une flûte unvisible
Soupire dans les vergers. -
La chanson la plus paisible
Est la chanson des bergers.

Le vent ride, sous l'yeuse,
Le sombre miroir des eaux. -
La chanson la plus joyeuse
Est la chanson des oiseaux.

Que nul soin ne te tourmente.
Aimons-nous! aimons toujours! -
La chanson la plus charmante
Est la chanson des amours.

Victor Hugo - Les Contemplations

TU ME VOIS BON CHARMANT ET DOUX...

Tu me vois bon, charmant et doux, ô ma beauté;
Mes défauts ne sont pas tournés de ton côté;
C'est tout simple. L'amour étant de la lumière,
Change en temple la grotte, en palais la chaumière,
La ronce en laurier-rose et l'homme en demi-dieu.
Tel que je suis, rêvant beaucoup et valant peu,
Je ne te déplais pas assez pour que ta bouche
Me refuse un baiser, ô ma belle farouche,
Et cela me suffit sous le ciel étoilé.
Comme Pétrarque Laura et comme Horace Églé,
Je t'aime. Sans l'amour l'homme n'existe guère.
Ah! j'oublie à tes pieds la patrie et la guerre
Et je ne suis plus rien qu'un songeur éperdu.

Victor Hugo (1874) Océan vers

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Aqui te amo...

"Aqui te amo.
Nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento.
A lua fosforece sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Desaperta-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso.
Ás vezes uma vela. Atlas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.

Às vezes amanheço, e até a alma está húmida.
Soa, ressoa o mar ao longe.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses navios graves
que correm pelo mar aonde nunca chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde.
A minha vida cansa-se inutilmente faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas a noite aparece e começa a cantar-me.
A lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olham-me com os teus olhos a estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar o teu nome com as folhas de arame."


Pablo Neruda

Vinte Poemas de Amor e
Uma Canção Desesperada.

Publicações D. Quixote (pp. 69-71)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

FLOR SINGELA

Linda flor que nos jardins
Fôrça de arte cultivou,
Tem dobrada a folha, o cheiro
Mas de fructo se privou.

Passa abelha diligente,
E admirou tanto primor;
Mas para os favos o nectar,
Vae buscal-o a outra flor.

Singelinha de três folhas
Co'a musqueta deparou,
E em seu calix meio-aberto
Oh que thesouro encontrou!

Como a abelha diligente
Que busca a singela flor,
Um singelo coração
Também só procura amor.


Almeida Garrett (Paris 1833) in Lìrica Completa
Arcádia, Lisboa 1971

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias, Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

_ Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira (Teresópolis, 1912) Obras Poéticas
Editorial Minerva - Lisboa

SAUDADE

SECULOS são, na vida que enfastia,
Estes dias de exilio amargurados;
Um por um, mágoa a mágoa, vão contados
Em lenta e cruelissima agonia.

Oh! roubemos-lhe ao menos este dia,
Ao padecer que todos trás roubados;
Sejam pela amizade consagrados
Ao casto amor instantes de alegria.

Tem prazeres também a desventura:
A propria carrancuda adversidade
Sorri co'a esp'rança que lhe luz futura.

Vem, amigo, no seio da amizade
Festeja a espôsa, sonha co'a ventura
Que um dia hade matar tanta saudade.

Almeida Garrett (Londres 1828) Lírica Completa
Arcádia

terça-feira, 21 de julho de 2009

A FLOR SECCA

Vae, flor gentil, vae prenda suspirada,
Doce mimo de amor terno e fagueiro,
Vae, que elle mesmo grato e prazenteiro
Elle te hade levar á minha amada.

Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada:
Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro,
Se o viço, a gala do verdor primeiro
Em tuas pallidas folhas vir crestada.

Diz'-lhe que mais que a ti, mais me queimara
O intenso ardor d'aquella saudade
Que a ambos n'este estado nos deixara.

Oh! se um benigno influxo de piedade
De seus formosos olhos te orvalhára...
Qual de nós ambos reviver não hade?

Almeida Garrett (Porto, 1819) Lírica Completa
Arcádia

I DREAMED A DREAM

Eu tive um sonho
Houve um tempo quando os homens eram amáveis
Quando as suas vozes eram suaves
E as suas palavras convidativas
Houve um tempo quando o amor era cego
E o mundo era uma canção
E a canção era excitante
Houve um tempo... então deu tudo errado
Eu tive um sonho num tempo que já se foi
Quando esperanças eram elevadas e valia a pena viver
Eu sonhei que o amor nunca morreria
Eu sonhei que Deus estaria perdoando
Então eu era jovem e destemida
Quando sonhos eram feitos e usados e perdidos
Não havia nenhum resgate a ser pago
Nenhuma canção desconhecida, nenhum vinho intocado
Mas os tigres chegaram à noite
Com as suas vozes suaves como trovão
Tal como eles rasgam a sua esperança em pedaços
Tal como eles transformam os seus sonhos em vergonha
Ele dormiu um Verão ao meu lado
Ele encheu meus dias de maravilha infinita
Ele fez da minha infância o seu êxito
Mas ele se foi quando o Outono chegou
E ainda sonho com ele vindo até mim
E nós viveríamos juntos os anos
Mas há sonhos que não podem acontecer
E há tempestades que não podem desafiar
Eu tive um sonho
Que a minha vida iria ser
Tão diferente deste inferno que estou a viver
Tão diferente agora do que parecia
Agora a vida matou o sonho que tive
Eu sonhei

(I dreamed a dream - Trecho musical de Os Miseráveis")
Trad. desconhecido)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ausência

"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

Por isso, de deixar alguns sinais - um peso

Nos olhos, no lugar da tua imagem, e

Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

Tivessem roubado o tacto. São estas as formas

Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

As coisas simples também podem ser complicadas,

Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a

Realidade aproxima-me de ti, agora que

Os dias correm mais depressa, e as palavras

Ficam presas numa refracção de instantes,

Quando a tua voz me chama de dentro de

Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

Como dizer que a tua ausência me dói."


Nuno Júdice,
in Pedro Lembrando Inês (2002)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Este amor

"Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo"



Jacques Prévert
Retirado de:
http://infinito-pessoal.blogspot.com/

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras
anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão..."


Miguel Torga

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Os silêncios da fala

"São tantos

os silêncios da fala

De sede

De saliva

De suor

Silêncios de silex

no corpo do silêncio

Silêncios de vento

de mar

e de torpor

De amor

Depois, há as jarras

com rosas de silêncio

Os gemidos

nas camas

As ancas

O sabor

O silêncio que posto

em cima do silêncio

usurpa do silêncio o seu magro labor".



Maria Teresa Horta

in Vozes e Olhares no Feminino,
Edições Afrontamento, Porto 2001, pp. 40, 41

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O primeiro homem

"Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços".


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho