"Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios."
António Ramos Rosa
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
CANÇÃO DE AMOR
Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.
Rainer Maria Rilke
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.
Rainer Maria Rilke
terça-feira, 6 de abril de 2010
Reflexos
"Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite
E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti."
Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora
Quasi Edições
Do vidro
E o coração da noite
E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti."
Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora
Quasi Edições
domingo, 14 de março de 2010
S.O.S.
Meus sentidos votaram a lei da procura
E os augúrios colhidos nas minhas entranhas
Prometeram as lutas que vencem a morte.
E foi por isso, mulher,
E foi por isso que antes de eu nascer
Se escreveu no meu sangue
A mensagem que havias de ler.
Mas onde moras?
Tu, que guardas em teu ventre
Um lugar para o meu filho!...
Onde choras,
Se a multidão te pisa, longe dos meus braços...
Onde cantas
Se pressentes
A cadência dos meus passos?...
Vai-se-me tudo em morte, a procurar-te
Nesse golfo revolto que nos engoliu,
Mas eu quero inventar outra vida,
E tenho os planos:
O labor é teu.
Onde moras,
Onde cantas e choras,
Tu de quem me falaram antes de eu nascer?...
E de quem falarei, para além,
Quando eu morrer!
Escuta agora uma garganta enxuta,
Gritando no meu corpo
Esbracejante,
Presa e rebelde
No abraço do mar.
Escuta agora uma garganta rouca
Enquanto a água é pouca para me afogar.
Escuta e não juntes a cinza das velas
Do barco do tempo
Que nos ardeu
- Traz o beijo que resolve
E dissolve as entranhas
Ainda que não sejas tu que venhas.
Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 1911-1939) in Poemas
Campo das Letras
GÉNESIS
O mundo existe desde que eu fui nado.
Tudo o mais é um... era uma vez
- A história que se contou.
No princípio criou-se o leite que mamei
E eu vi que era bom e chorei
Quando a fonte materna secou.
A terra era sem forma
E vazia;
Havia trevas no abismo.
E formou-se o chão
E amassou-se o pão
Que eu comi.
(Era este aquela esponja que eu mordia,
Que eu babava,
Que eu sujava,
Que uma gente andrajosa pedia).
E então se fez
A geração remota dos papões:
Nascera a esmola, o medo, a prece
E o rosto que empalidece...
E a rosa criou-se,
Desejada,
E logo o espinho,
A lágrima,
O sangue.
Este era vermelho e doce,
A lágrima doce, briolhante, salgada;
No espinho havia o gosto
Da vingança perfumada.
E eu vi que tudo era bom.
E fizeram-se os luminares,
Porque eu tinha olhos,
E o som fez-se de cantares
E de gemidos.
Porque eu tinha ouvidos.
Nasceram as águas
E os peixes das águas
E alguns seres viventes da terra
E as aves dos céus.
O homem que então era vagamente feito,
Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,
E fizeram-se as mágoas
E o adeus.
E eu vi que tudo era bom.
A mulher só mais tarde se fez:
Foi duma vez
Em que eu e ela nos somámos
E ficámos três.
Nisto e no mais se gastaram
sete longuíssimos dias.
O mundo era feito
E embora por tudo e por nada imperfeito,
Eu vi que era bom.
Acaba o mundo
Quando eu morrer.
Sim...será o fim!:
Também tu deixas de existir,
No mesmo dia.
E o resto que se seguir
É profecia.
Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 1911-1939) - in Poemas - Campo das Letras
Tudo o mais é um... era uma vez
- A história que se contou.
No princípio criou-se o leite que mamei
E eu vi que era bom e chorei
Quando a fonte materna secou.
A terra era sem forma
E vazia;
Havia trevas no abismo.
E formou-se o chão
E amassou-se o pão
Que eu comi.
(Era este aquela esponja que eu mordia,
Que eu babava,
Que eu sujava,
Que uma gente andrajosa pedia).
E então se fez
A geração remota dos papões:
Nascera a esmola, o medo, a prece
E o rosto que empalidece...
E a rosa criou-se,
Desejada,
E logo o espinho,
A lágrima,
O sangue.
Este era vermelho e doce,
A lágrima doce, briolhante, salgada;
No espinho havia o gosto
Da vingança perfumada.
E eu vi que tudo era bom.
E fizeram-se os luminares,
Porque eu tinha olhos,
E o som fez-se de cantares
E de gemidos.
Porque eu tinha ouvidos.
Nasceram as águas
E os peixes das águas
E alguns seres viventes da terra
E as aves dos céus.
O homem que então era vagamente feito,
Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,
E fizeram-se as mágoas
E o adeus.
E eu vi que tudo era bom.
A mulher só mais tarde se fez:
Foi duma vez
Em que eu e ela nos somámos
E ficámos três.
Nisto e no mais se gastaram
sete longuíssimos dias.
O mundo era feito
E embora por tudo e por nada imperfeito,
Eu vi que era bom.
Acaba o mundo
Quando eu morrer.
Sim...será o fim!:
Também tu deixas de existir,
No mesmo dia.
E o resto que se seguir
É profecia.
Políbio Gomes dos Santos (Ansião, 1911-1939) - in Poemas - Campo das Letras
terça-feira, 9 de março de 2010
Poesia
"é a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde..."
Vítor Matos e Sá
in 'Esparsos'
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde..."
Vítor Matos e Sá
in 'Esparsos'
domingo, 7 de março de 2010
Amo o Caminho que Estendes
Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.
Daniel Faria in Líquidos
GOZO E DOR
Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.
Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida - ou a razão.
Almeida Garrett in Folhas Caídas
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.
Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida - ou a razão.
Almeida Garrett in Folhas Caídas
terça-feira, 2 de março de 2010
Horas Rubras
"Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas.
Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Também astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languscentes
São pedaços de prata pelas estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca e mistérios...
E, sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!"
Florbela Espanca (1894-1930)
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas.
Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Também astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languscentes
São pedaços de prata pelas estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca e mistérios...
E, sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!"
Florbela Espanca (1894-1930)
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Ofício de amor
"Se conheces o prazer, não escatimes o beijo
pois o prazer de amar não comporta medida.
Deixa-te beijar e beija tu depois,
que nos lábios sempre é onde o amor perdura.
Não beijes, não, como o escravo e o crente,
mas como o viandante à fonte oferecida.
Deixa-te beijar - ardente sacrifício -
quanto mais queima mais fiel é o beijo.
Que terias feito se tu morresses antes,
sem mais fruto do que a aragem no rosto?
Deixa-te beijar, e no peito, nas mãos
- amante ou amada - a taça muito alta.
Quando beijes, bebe, o copo sare o medo:
beija no pescoço, o sítio mais formoso.
Deixa-te beijar, e se ainda te apetece
beija de novo, pois a vida é contada."
Jean Salvat-Papasseit
poeta da Catalunha (1894-1924)
Trad.:João Bento
pois o prazer de amar não comporta medida.
Deixa-te beijar e beija tu depois,
que nos lábios sempre é onde o amor perdura.
Não beijes, não, como o escravo e o crente,
mas como o viandante à fonte oferecida.
Deixa-te beijar - ardente sacrifício -
quanto mais queima mais fiel é o beijo.
Que terias feito se tu morresses antes,
sem mais fruto do que a aragem no rosto?
Deixa-te beijar, e no peito, nas mãos
- amante ou amada - a taça muito alta.
Quando beijes, bebe, o copo sare o medo:
beija no pescoço, o sítio mais formoso.
Deixa-te beijar, e se ainda te apetece
beija de novo, pois a vida é contada."
Jean Salvat-Papasseit
poeta da Catalunha (1894-1924)
Trad.:João Bento
domingo, 21 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Modo de amar – II
"Por-me-ás de borco,
assim inclinada…
a nuca a descoberto,
o corpo em movimento…
a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo…
Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada…
as pernas longas
firmadas no lençol…
e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome…
(Por-me-ás de borco,
assim inclinada…
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)"
Maria Teresa Horta
in Poesia Erótica
assim inclinada…
a nuca a descoberto,
o corpo em movimento…
a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo…
Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada…
as pernas longas
firmadas no lençol…
e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome…
(Por-me-ás de borco,
assim inclinada…
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)"
Maria Teresa Horta
in Poesia Erótica
Modo de amar – I
"Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura
usa-me as coxas
devasta-me o umbigo
abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros
e lentamente faz o que te digo..."
MARIA TEREZA HORTA
in Poesia Erótica
desmancha-me a loucura
usa-me as coxas
devasta-me o umbigo
abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros
e lentamente faz o que te digo..."
MARIA TEREZA HORTA
in Poesia Erótica
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
MEU AMOR
Meu amor, amor meu
Ofereço-te a alma
Como ao Diabo se oferece
Em bandeja de prata
Óleo de tanta transpiração
Juntos
Transpiração incandescente
De fricção de corpos
Eléctrica
Impaciente
Todo o amor se faz
Com Amor
Sem Amor se desfaz
Amor Amor
Amor fervente mesmo antes
Desamor
Como nos daremos
Se nos dermos
Pouco?
Onde nos demos
Que não te pressinto ou sinto?
Luís Adriano Carlos
Ofereço-te a alma
Como ao Diabo se oferece
Em bandeja de prata
Óleo de tanta transpiração
Juntos
Transpiração incandescente
De fricção de corpos
Eléctrica
Impaciente
Todo o amor se faz
Com Amor
Sem Amor se desfaz
Amor Amor
Amor fervente mesmo antes
Desamor
Como nos daremos
Se nos dermos
Pouco?
Onde nos demos
Que não te pressinto ou sinto?
Luís Adriano Carlos
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Mais que o teu corpo
"Mais que o teu corpo quero o teu pudor
Quero o destino e a alma e quero a estrela
E quero o teu prazer e a tua dor
O crepúsculo e a aurora e a caravela
Para o amor que fica além do amor.
A alegria e o desastre e o não sei quê
De que fala Camões e é como a água
Que dos dedos se escapa e só se vê
Quando o prazer se torna quase mágoa.
Estar em ti como quem de si se parte
E assim se entrega e dando não se dá
Quero perder-me em ti e quero achar-te
Como num corpo o corpo que não há."
Manuel Alegre
Quero o destino e a alma e quero a estrela
E quero o teu prazer e a tua dor
O crepúsculo e a aurora e a caravela
Para o amor que fica além do amor.
A alegria e o desastre e o não sei quê
De que fala Camões e é como a água
Que dos dedos se escapa e só se vê
Quando o prazer se torna quase mágoa.
Estar em ti como quem de si se parte
E assim se entrega e dando não se dá
Quero perder-me em ti e quero achar-te
Como num corpo o corpo que não há."
Manuel Alegre
domingo, 31 de janeiro de 2010
Consolação
Quando à noite no baile esplendoroso
Vais na onda da valsa arrebatada
Com a serena fronte reclinada
Sobre o peito feliz do par ditoso...
Mal sabes tu que existe desditoso
Faminto de te ver, oh minha amada!
E que sente a sua alma angustiada
Longe da luz do teu olhar piedoso.
Mas quando a roxa aurora vem nascendo,
E a cotovia acorda o laranjal,
E os astros vão de todo esmorecendo,
Eu cuido ver-te, oh lírio divinal,
As minhas cartas ávida relendo
Seminua no leito virginal.
Gonçalves Crespo, 1869
Vais na onda da valsa arrebatada
Com a serena fronte reclinada
Sobre o peito feliz do par ditoso...
Mal sabes tu que existe desditoso
Faminto de te ver, oh minha amada!
E que sente a sua alma angustiada
Longe da luz do teu olhar piedoso.
Mas quando a roxa aurora vem nascendo,
E a cotovia acorda o laranjal,
E os astros vão de todo esmorecendo,
Eu cuido ver-te, oh lírio divinal,
As minhas cartas ávida relendo
Seminua no leito virginal.
Gonçalves Crespo, 1869
Eu pronuncio teu nome...
Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
Alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos dudessem
Garcia Lorca
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
Alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos dudessem
Garcia Lorca
Colóquio dos amantes à porta do templo
- Começa, não esperes por mim, atravessa a porta para além do fim,
recolhe o odor da flor no canto do jardim, começa como quem regressa
de dentro de mim quando a vida acelera, não esperes enquanto esperas,
recomeça do zero teu discurso austero em que aos poucos desespero.
- Começa, reza por mim esta sílaba errática numa língua sem gramática,
soletra cada palavra como quem grava uma oitava nas águas com que se lava,
decifra todas as letras que o vento expira nas gretas da solidão, respira sem mim
enquanto me trazes dentro do pulmão, começa a caminhar na pura imaterialidade
como quem atravessa o fim no princípio mais distante de qualquer cidade.
- Começa, não esperes enquanto esperas, começa e recomeça depois de recomeçares,
safah, toma esta palavra em forma de porta iluminada, língua ardendo nos lábios,
davar, toma esta palavra em forma de torre insuflada, língua mordendo os lábios,
graça infinita de ser ave, garça branca que comove a sarça ardente quando chove.
- Começa, não esperes por ti, começa e atravessa a porta para além de mim,
respira-me no perfume do jardim mas leva-me no teu lume para além do fim,
não esperes senão o que te espera, e no entanto espera do sal da terra
o verão incorruptível da primavera e a paixão do tempo imóvel que acelera,
habita para além de ti o infinito e reza no canto infeliz a sílaba do teu grito.
- Começa, espera por mim, começa de súbito o meu recomeço antes de ser hábito,
começa e reinventa esta palavra como se fosse lava da sarça ardendo em cada lábio,
começa e soletra cada letra, letra a letra, e no fim desperta como quem se oferta,
para que tudo em nós recomece e cante e reze a nossa primeira prece.
- Começa, espera ou não por mim em ti, mas começa em ti dentro de mim.
Luís Adriano Carlos
recolhe o odor da flor no canto do jardim, começa como quem regressa
de dentro de mim quando a vida acelera, não esperes enquanto esperas,
recomeça do zero teu discurso austero em que aos poucos desespero.
- Começa, reza por mim esta sílaba errática numa língua sem gramática,
soletra cada palavra como quem grava uma oitava nas águas com que se lava,
decifra todas as letras que o vento expira nas gretas da solidão, respira sem mim
enquanto me trazes dentro do pulmão, começa a caminhar na pura imaterialidade
como quem atravessa o fim no princípio mais distante de qualquer cidade.
- Começa, não esperes enquanto esperas, começa e recomeça depois de recomeçares,
safah, toma esta palavra em forma de porta iluminada, língua ardendo nos lábios,
davar, toma esta palavra em forma de torre insuflada, língua mordendo os lábios,
graça infinita de ser ave, garça branca que comove a sarça ardente quando chove.
- Começa, não esperes por ti, começa e atravessa a porta para além de mim,
respira-me no perfume do jardim mas leva-me no teu lume para além do fim,
não esperes senão o que te espera, e no entanto espera do sal da terra
o verão incorruptível da primavera e a paixão do tempo imóvel que acelera,
habita para além de ti o infinito e reza no canto infeliz a sílaba do teu grito.
- Começa, espera por mim, começa de súbito o meu recomeço antes de ser hábito,
começa e reinventa esta palavra como se fosse lava da sarça ardendo em cada lábio,
começa e soletra cada letra, letra a letra, e no fim desperta como quem se oferta,
para que tudo em nós recomece e cante e reze a nossa primeira prece.
- Começa, espera ou não por mim em ti, mas começa em ti dentro de mim.
Luís Adriano Carlos
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